Sem esconder a cara
Luís Montenegro não vendeu, ainda, a alma ao diabo, mas segue convicto de que pode brincar com ele sem se queimar.
O Parlamento português voltou a debruçar-se sobre assuntos que realmente interessam e decidiu que, o que é bom, é para se ver. Nesse sentido, após refletirem seriamente sobre a proposta do Chega para proibir o uso de burca em espaços públicos, os deputados das bancadas do PSD e da Iniciativa Liberal decidiram juntar-se à causa dos seus camaradas da extrema-direita e aprovaram a medida.
O flirt entre a direita que se diz moderada e a direita que afirma não ser radical não é novidade na era de Luís Montenegro. Era, aliás, tão claro e evidente que, durante a campanha eleitoral que precedeu a sua primeira eleição, os jornalistas dos vários órgãos de comunicação, independentemente da sua linha editorial, não puderam deixar de questionar o líder do PSD quanto à possibilidade de vir a formar alianças políticas com o Chega.
Foi através dessa pergunta impertinente que surgiram as célebres tomadas públicas de posição, em que Montenegro, do alto da sua indignação face à insistência dos periodistas no assunto, foi repetindo o mítico “não é não” que haveria de o acompanhar até ao dia do sufrágio.
Mas o poder muda um homem e, afinal, o primeiro-ministro é um mero mortal como nós. Neste caso, foram apenas as convicções que se alteraram, e a vulgaridade de um “não é não” deu lugar a um – muito mais sofisticado – “depende”.
Entretanto, por questões familiares, o país foi novamente a votos e os portugueses, perante as súplicas de Luís para que o deixassem trabalhar, acederam à sua vontade e devolveram-no a São Bento. Eis que Montenegro, vendo legitimada a sua “forma de estar na política”, decide que, na nova legislatura que tem pela frente, vai dialogar com “todos, todos, todos” – incluindo, naturalmente, o partido de André Ventura.
Nem um ano foi necessário para que o chefe do governo, que é contra extremismos, mudasse radicalmente de opinião e se deixasse seduzir pela agenda do partido antissistema. Desde as alterações à lei da nacionalidade, passando pelas restrições impostas aos estrangeiros no acesso ao Serviço Nacional de Saúde, os resultados desta deriva fascizante do centro-direita começam a tornar-se visíveis, e este é apenas o primeiro ano do ciclo governativo.
“Saiba eu com que te ocupas e saberei também no que te poderás tornar”, escreveu Goethe – autor de Fausto, o livro favorito de André Ventura. Luís Montenegro não vendeu, ainda, a alma ao diabo, mas segue convicto de que pode brincar com ele sem se queimar.

